Mostrando postagens com marcador Vinícius de Moraes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vinícius de Moraes. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Acontecimento

Vinícius de Moraes


Haverá na face de todos um profundo assombro 
E na face de alguns, risos sutis cheios de reserva 
Muitos se reunirão em lugares desertos 
E falarão em voz baixa em novos possíveis milagres 
Como se o milagre tivesse realmente se realizado 

Muitos sentirão alegria 
Porque deles é o primeiro milagre 
Muitos sentirão inveja 
E darão o óbolo do fariseu com ares humildes 
Muitos não compreenderão 
Porque suas inteligências vão somente até os processos 
E já existem nos processos tantas dificuldades... 

Alguns verão e julgarão com a alma 
Outros verão e julgarão com a alma que eles não têm 
Ouvirão apenas dizer... 
Será belo e será ridículo 

Haverá quem mude como os ventos 
E haverá quem permaneça na pureza dos rochedos. 
No meio de todos eu ouvirei calado e atento, comovido e risonho 
Escutando verdades e mentiras 
Mas não dizendo nada. 
Só a alegria de alguns compreenderem bastará 
Porque tudo aconteceu para que eles compreendessem 
Que as águas mais turvas contêm às vezes as pérolas mais belas.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Soneto do maior amor

Vincius de Moraes

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

Soneto de separação

Vinícius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Soneto de fidelidade

Vinícius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama 
Mas que seja infinito enquanto dure

quinta-feira, 26 de março de 2009

Ausência

Vinícius de Moraes

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.